Adoção intuitu personae: o valor do vínculo afetivo em decisões judiciais do TJRJ

Adoção intuitu personae

o valor do vínculo afetivo em decisões judiciais do TJRJ

Autores

DOI:

https://doi.org/10.70622/2236-8957.2026.641

Palavras-chave:

adoção intuitu personae, vínculo afetivo, melhor interesse da criança, psicologia do desenvolvimento

Resumo

A adoção intuitu personae ocorre quando os pais biológicos, ou um deles, expressam interesse em entregar diretamente o filho a uma pessoa ou família sem a obrigatoriedade de estarem inscritos no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA). A validade jurídica dessa modalidade é objeto de controvérsia doutrinária, embora a jurisprudência, incluindo a do Superior Tribunal de Justiça, venha admitindo a relativização da ordem cronológica do cadastro quando constituído vínculo socioafetivo entre o adotando e os adotantes. Este artigo examina como a presença do vínculo afetivo influencia decisões judiciais sobre adoção intuitu personae no âmbito do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ). Trata-se de pesquisa qualitativa, de natureza exploratória, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica e de análise documental de 19 acórdãos e decisões monocráticas de segunda instância julgados entre 2014 e 2024, examinados em seu inteiro teor. O vínculo afetivo constituiu fundamento determinante em 13 das 19 decisões, amparando tanto a manutenção da criança no núcleo em que se encontrava quanto o seu afastamento. Nas decisões de deferimento, sua aferição apoiou-se sobretudo em indicadores relacionais; nas de indeferimento, prevaleceram o curto período de convivência e a tenra idade da criança, somados à insuficiência ou à divergência das manifestações técnicas. Conclui-se que a literatura da psicologia do desenvolvimento pode oferecer aporte complementar à qualificação dos critérios de aferição do vínculo.

Biografia do Autor

Andréa Silva Coutinho Teixeira, TJRJ

Especialista em Psicologia Jurídica pelo Instituto Sapiens de Psicologia. Especialista em Neurociências, Educação e Desenvolvimento Infantil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Especialista em Neuropsicologia Clínica pelo IBNEURO. Psicóloga do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

Verônica Peterson Chaves, Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Brasil

Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialista em Psicologia Jurídica, especialista em psicoterapia da infância e adolescência. Psicóloga do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

Referências

ALVARENGA, Clarissa de Araujo. A adoção intuitu personae na perspectiva do melhor interesse da criança e do adolescente e da doutrina da proteção integral. Revista de Direito de Família e Sucessão, Florianópolis, v. 9, n. 1, p. 36-58, 2023. DOI: 10.26668/IndexLawJournals/2526-0227/2023.v9i1.9509. Disponível em: https://www.indexlaw.org/index.php/direitofamilia/article/view/9509. Acesso em: 16 ago. 2026.

ALVES, Pedro Henrique. A hermenêutica do artigo 50, § 13, inciso III, do ECA, frente à equidade e aos princípios constitucionais da proteção integral e da prioridade absoluta. In: CURSO de constitucional: normatividade jurídica. Rio de Janeiro: EMERJ, 2013. p. 238-243. (Série Aperfeiçoamento de Magistrados, 11). Disponível em: https://emerj.tjrj.jus.br/files/pages/publicacoes/serieaperfeicoamentodemagistrados/paginas/series/11/normatividadejuridica238.pdf. Acesso em: 21 ago. 2026.

AMARILLA, Silmara Domingues Araújo. O afeto como paradigma da parentalidade: os laços e os nós na constituição dos vínculos parentais. Curitiba: Juruá, 2014.

BORDALLO, Galdino Augusto Coelho. Adoção. In: MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade (coord.). Curso de direito da criança e do adolescente: aspectos teóricos e práticos. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2022. p. 389-479.

BOWLBY, John. Uma base segura: aplicações clínicas da teoria do apego. Tradução de Marcos Vinícius Martim da Silva. Porto Alegre: Artmed, 2024. (Publicado originalmente em 1988).

BRASIL. Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária: PNCFC 2025. Brasília, DF: Conanda, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/participamaisbrasil/pncfc. Acesso em: 18 ago. 2026.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 16 jul. 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 27 dez. 2024.

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (3. Turma). Recurso Especial nº 1.172.067/MG. Aferição da prevalência entre o cadastro de adotantes e a adoção intuitu personae. Aplicação do princípio do melhor interesse do menor. Relator: Min. Massami Uyeda, julgado em 18 mar. 2010. Brasília, DF: Diário da Justiça Eletrônico, 14 abr. 2010. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/SCON/pesquisar.jsp?i=1&b=ACOR&livre=%28%28%27RESP%27.clas.+e+%40num%3D%271172067%27%29+ou+%28%27REsp%27+adj+%271172067%27%29.suce.%29&O=JT. Acesso em: 16 ago. 2026.

BRODZINSKY, David; GUNNAR, Megan; PALACIOS, Jesus. Adoption and trauma: risks, recovery, and the lived experience of adoption. Child Abuse & Neglect, [s. l.], v. 130, pt. 2, art. 105309, ago. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.chiabu.2021.105309. Acesso em: 18 ago. 2026.

CÂMARA, Hermano Victor Faustino; MATOS, Ana Carla Harmatiuk; SILVA, Fernando Moreira Freitas da. Adoção intuitu personae: a tipicidade aberta e as tendências para o reconhecimento da entrega direta. Civilistica.com, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-17, 2024. DOI: 10.5281/zenodo.18743662. Disponível em: https://civilistica.emnuvens.com.br/redc/article/view/957. Acesso em: 16 ago. 2026.

DIAS, Maria Berenice. Manual de direito das famílias. 11. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016. E-book.

DIAS, Maria Berenice. Os filhos do afeto. 3. ed. rev. e atual. São Paulo: JusPodivm, 2022.

GAZZANIGA, Michael S.; HEATHERTON, Todd F.; HALPERN, Diane F. Ciência psicológica. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.

KLIEWER-NEUMANN, Josephine D. et al. Attachment disorder symptoms in foster children: development and associations with attachment security. Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health, [s. l.], v. 17, art. 98, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13034-023-00636-5. Acesso em: 16 ago. 2026.

MADIGAN, Sheri et al. Maternal and paternal sensitivity: key determinants of child attachment security examined through meta-analysis. Psychological Bulletin, [s. l.], v. 150, n. 7, p. 839-872, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1037/bul0000433. Acesso em: 16 ago. 2026.

MAGUIRE, Darren et al. A systematic review of the impact of placement instability on emotional and behavioural outcomes among children in foster care. Journal of Child & Adolescent Trauma, [s. l.], v. 17, n. 2, p. 641-655, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s40653-023-00606-1. Acesso em: 16 ago. 2026.

MIRANDA JÚNIOR, Hélio Cardoso de; MARCOS, Cristina Moreira. A noção de afeto no direito de família: diálogo com a psicopatologia e a psicanálise. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 25, n. 3, p. 510-532, set. 2022. DOI: 10.1590/1415-4714.2022v25n3p510.2. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rlpf/a/mxnYkpYFdxsjZPLGbfS74kG/. Acesso em: 15 ago. 2026.

MOREIRA, Silvana do Monte. Adoção: desconstruindo mitos: entre laços e entrelaços. Curitiba: Juruá, 2020.

NIVISON, Marissa D. et al. Annual Research Review: the role of caregiver sensitivity in children’s developmental outcomes – an umbrella review. Journal of Child Psychology and Psychiatry, [s. l.], 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1111/jcpp.70087. Acesso em: 19 ago. 2026.

NOGUEIRA, Rodolfo Brandão de Azevedo; DESLANDES, Suely Ferreira; CONSTANTINO, Patrícia. A medida protetiva de acolhimento institucional de crianças e adolescentes na perspectiva dos estudos nacionais. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 29, n. 7, e02902024, jul. 2024. DOI: 10.1590/1413-81232024297.02902024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/tJ855C5xFdf4QD7y8yCpQLx/. Acesso em: 15 ago. 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA. UNICEF, Nova York, 1989. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca. Acesso em: 8 mar. 2025.

PAPALIA, Diane E.; MARTORELL, Gabriela. Desenvolvimento humano. 14. ed. Porto Alegre: AMGH, 2022.

PAULICHI, Jaqueline da Silva; CARDIN, Valéria da Silva Galdino. O princípio da afetividade nas relações familiares. Direito e Desenvolvimento, João Pessoa, v. 15, n. 1, p. 9-39, jul. 2024. DOI: 10.26843/direitoedesenvolvimento.v15i1.1406. Disponível em: https://periodicos.unipe.edu.br/index.php/direitoedesenvolvimento/article/view/1406. Acesso em: 15 ago. 2026.

PEREIRA, Rodrigo da Cunha. Dicionário de direito de família e sucessões: ilustrado. São Paulo: Saraiva, 2015.

RAMOS, Patrícia Acácio. Acolhimento institucional de crianças e suas consequências. In: PAULO, Beatrice Marinho (org.). Psicologia na prática jurídica: a criança em foco. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 84-94.

RIO DE JANEIRO (Estado). Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (2. Câmara Cível). Agravo de Instrumento nº 0065477-43.2015.8.19.0000. Relator: Des. Paulo Sérgio Prestes dos Santos, julgado em 27 jan. 2016. Rio de Janeiro: TJRJ, 2016a. Íntegra do acórdão em segredo de justiça.

RIO DE JANEIRO (Estado). Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (8. Câmara Cível). Agravo de Instrumento nº 0066888-24.2015.8.19.0000. Relator: Des. Mônica Maria Costa Di Piero, julgado em 8 mar. 2016. Rio de Janeiro: TJRJ, 2016b. Íntegra do acórdão em segredo de justiça.

RIO DE JANEIRO (Estado). Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (11. Câmara Cível). Agravo de Instrumento nº 0042568-07.2015.8.19.0000. Relator: Des. Luiz Henrique Oliveira Marques, julgado em 15 jun. 2016. Rio de Janeiro: TJRJ, 2016c. Íntegra do acórdão em segredo de justiça.

RIO DE JANEIRO (Estado). Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (8. Câmara Cível). Agravo de Instrumento nº 0065153-82.2017.8.19.0000. Relator: Des. Cezar Augusto Rodrigues Costa, julgado em 2 out. 2018. Rio de Janeiro: TJRJ, 2018. Íntegra do acórdão em segredo de justiça.

RIO DE JANEIRO (Estado). Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (1. Câmara Cível). Agravo de Instrumento nº 0011650-44.2020.8.19.0000. Relator: Des. Custódio de Barros Tostes, julgado em 5 nov. 2020. Rio de Janeiro: TJRJ, 2020. Íntegra do acórdão em segredo de justiça.

RIO DE JANEIRO (Estado). Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (6. Câmara Cível). Agravo de Instrumento nº 0081295-59.2020.8.19.0000. Relatora: Des. Inês da Trindade Chaves de Melo, julgado em 9 mar. 2022. Rio de Janeiro: TJRJ, 2022. Íntegra do acórdão em segredo de justiça.

RIO DE JANEIRO (Estado). Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (3. Câmara de Direito Privado). Agravo de Instrumento nº 0086931-98.2023.8.19.0000. Relator: Des. Luiz Fernando de Andrade Pinto, julgado em 6 mar. 2024. Rio de Janeiro: TJRJ, 2024a. Íntegra do acórdão em segredo de justiça.

RIO DE JANEIRO (Estado). Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (4. Câmara de Direito Privado). Agravo de Instrumento nº 0084690-20.2024.8.19.0000. Relator: Des. Heleno Ribeiro Pereira Nunes, julgado em 12 nov. 2024. Rio de Janeiro: TJRJ, 2024b. Íntegra do acórdão em segredo de justiça.

SANTAGUIDA, Erica; BERGAMASCO, Massimo. A perspective-based analysis of attachment from prenatal period to second year postnatal life. Frontiers in Psychology, [s. l.], v. 15, art. 1296242, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fpsyg.2024.1296242. Acesso em: 19 ago. 2026.

SILVA FILHO, Artur Marques da. Adoção: regime jurídico, requisitos, efeitos, inexistência, anulação. 4. ed. atual. e ampl. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2019.

SONUGA-BARKE, Edmund J. S. et al. Child-to-adult neurodevelopmental and mental health trajectories after early life deprivation: the young adult follow-up of the longitudinal English and Romanian Adoptees study. The Lancet, [s. l.], v. 389, p. 1539-1548, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(17)30045-4. Acesso em: 18 ago. 2026.

VAN IJZENDOORN, Marinus H. et al. Institutionalisation and deinstitutionalisation of children 1: a systematic and integrative review of evidence regarding effects on development. The Lancet Psychiatry, [s. l.], v. 7, n. 8, p. 703-720, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(19)30399-2. Acesso em: 19 ago. 2026.

VIEIRA, Marcelo de Mello. Direito de crianças e de adolescentes à convivência familiar. 2. ed. Belo Horizonte: D’Plácido, 2020.

WATRIN, João Paulo. Limites das equipes multidisciplinares do Poder Judiciário brasileiro na recomendação de decisões judiciais. Estudios Socio-Jurídicos, Bogotá, v. 26, n. 2, p. 1-25, jul./dez. 2024. DOI: http://dx.doi.org/10.12804/esj. Disponível em: https://revistas.urosario.edu.co/index.php/sociojuridicos/article/view/13763. Acesso em: 14 ago. 2026.

WINNICOTT, Donald W. Processos de amadurecimento e ambiente facilitador: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Tradução de Irineo Constantino Schuch Ortiz. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

Downloads

Publicado

08.09.2026

Como Citar

Silva Coutinho Teixeira, A., & Peterson Chaves, V. (2026). Adoção intuitu personae: o valor do vínculo afetivo em decisões judiciais do TJRJ. Revista Da EMERJ, 28, 1–25. https://doi.org/10.70622/2236-8957.2026.641
Loading...